Minha carreira como desenhista aconteceu meio por acaso. Eu sempre gostei e li Histórias em Quadrinhos, mas nunca direcionei meus esforços para me
tornar um profissional da área. Nem mesmo pensava seriamente em me tornar um desenhista, seja qual fosse a área de
aplicação desse pretenso talento. Na verdade, foi um encadeamento de eventos que me levou a esse mercado. De qualquer
maneira, nunca tive nenhum preconceito com qualquer estilo ou gênero de HQ... Desde os alternativos, undergrouds, até os
mais comerciais como as aventuras e os super-heróis.
O chamado desenho infantil é claro, esta entre eles... Com o tempo, o estudo, e com o passar do meu caminho como
profissional, o chamado desenho infantil, muitas vezes generalizado como estilizado, acabou sendo meu principal
foco de aprendizado e crescimento... Foi com ele que comecei a entender melhor o que é desenho e o que é desenhar, mas
também me ajudou a entender melhor certos conceitos sobre filosofia, mitologia, símbolos, signos, religião, física
quântica e por aí vai... Pode parecer loucura tudo isso, mas, eu não sou conhecido por ser muito “lúcido”.
O Underground foi o gênero a que fui mais apresentado do que qualquer outro... Isso aconteceu através do meu irmão
Ricardo que adorava as revistas O Grilo e os autores Guido Crepax, Robert Crumb, entre tantos outros. Paralelamente
a isso, conheci alguns autores e materiais que me fascinaram mais do que qualquer outro... Popeye de E. C. Segar, o
Brucutu (ou Alley Oop) de V. T. Hamlin, o Tintin de Hergé, as estilizações de Jack Kirby, Will Eisner e Daniel Torres,
Flavio Colin e Ziraldo. É esta a base de toda a minha influencia como desenhista.
Geralmente os estilos de traço dos artistas citados acima são considerados como estilizados. E são. Muitos ligam o
termo estilizado ao conceito de desenho infantil. E podem ser considerados assim.
É obvio que nem todo desenho estilizado pode ser vinculado ao desenho infantil, porque apesar de sua construção
gráfica ser direcionada para um tipo de estruturação que pode até lembrar o desenho infantil, a temática de suas
histórias, todo o conceito explorado pelo autor como tema básico da obra não tem nada a ver com este público. Então,
não estou querendo dizer aqui, que todo desenho estilizado é infantil, mas que em muitos casos, são. Não estou dizendo
também que todo desenho direcionado para o publico infantil, seja, obrigatoriamente, estilizado, mas que em muitos casos,
são.
Em outro texto, já comentei sobre a estruturação do desenho. Do estilo. Sugeri outras maneiras de se ver desenho, de se entender desenho.
Falei sobre como podemos “ler” as imagens e também sobre a capacidade que o desenho infantil, o desenho estilizado, tem
de extrapolar a forma e seus significados... E, que justamente por trabalhar em termos de simbologia da forma, atua de
maneira diferente nas pessoas conseguindo aprofundar sensações, sentimentos... Que isso ocorre porque o desenho infantil,
estilizado, tem como foco o expressivo com base no realismo, isto é; a realidade é a base para a criação de um símbolo
gráfico: Uma árvore no mundo material real serve como base para se criar uma representação gráfica dessa árvore... Uma
cadeira, mesa, avião, navio, sapato, colher, tecido, no mundo real servem como base para a criação de uma representação
gráfica de cada um destes objetos. Isso vale também para seres humanos, animais, vegetais... Minerais e por aí vai.
Mas, a estilização, o desenho infantil, não para aí... Ele é muito mais interessante e profundo do que isso porque também
possui a qualidade de tornar gráfico sensações, sentimentos, traços de personalidades e conceitos. Na estilização, um
personagem pode mostrar facetas de sua personalidade através de uma forma gráfica. Normalmente os artistas estruturam
estas formas gráficas para os personagens partindo de bases psicológicas estereotipadas, mas artistas experientes também
conseguem traduzir traços psicológicos mais sutis nessas representações. E existem técnicas para isso.
Em outro texto, falei também de tipos de artistas (claro que de uma maneira simplista). Falei dos artistas conceituais,
viscerais... Que possuem um estilo próprio e muitas vezes pouco técnico. Falei do artista técnico, que aprofundou e
centrou seus esforços no estudo acadêmico do desenho, da ilustração, da pintura e por aí vai. Também falei do artista que
reúne estas duas qualidades. Esta classificação (novamente simplista), também é válida para a área desenho infantil.
Em termos técnicos, este desenho infantil é uma das linhas de trabalho mais complexas dentro das aplicações profissionais
que o desenho, a arte de desenhar pode ter. Digo isso, porque fazer o tal desenho infantil exige muita maturidade do
artista, da sua arte, do seu estudo profundo da forma e de como representá-la. Exige também vivência, experiências de
vida. Esta complexidade vem justamente do fato de este artista ter que estar mais maduro para conseguir entender,
controlar, moldar, interpretar a forma que existe no mundo real, ou até mesmo imaginar algo que não existe, e conferir a
ela toda esta qualidade gráfica em termos de significados, simbolismos e expressão... E, é claro, para isso, ele precisa
ter pelo menos uma base sólida de conhecimento não só gráfico, mas (e isso é o mais importante) um maior estofo cultural,
intelectual... Referencias. Por isso citei a experiência de vida. Você não consegue criar estas leituras de significados,
simbolismos, se não se estruturou intelectualmente para isso.
Percebi esta complexidade escondida atrás do termo desenho infantil desde muito cedo. E uma das coisas que me ajudou a
continuar a desenhar por tanto tempo, foi tentar entender a base desta complexidade, não para me tornar profissional, mas
para entender todas estas simbologias envolvidas.
Sempre gostei de estudar a estrutura gráfica como linguagem, como signo, como símbolo. E para isso, precisei ler. Ler
muito. Filosofia, antropologia... Arte... Sempre me interessou ver as coisas pelo lado mais complicado delas... Ou (pra
mim) o lado bem mais legal delas. Algo além do que só sua superfície. Por isso, de uma certa maneira, nunca me interessei
muito pelo desenho mais realista, porque, embora também tenha qualidade, beleza e importância (é claro), e seja também
gráfico (como todo desenho é), ele procura representar a realidade como ela é, e não como ela pode ser interpretada e por
isso, ganhar significados mais profundos.
Mesmo assim, entendi muito cedo também, que para controlar e moldar a forma a ponto de torná-la símbolo, signo gráfico,
eu deveria entender sua base, e que ela está no mundo material. Assim, entendi muito cedo também que o estudo acadêmico
destas formas como estrutura seria importante. Sempre soube que deveria assumir a forma vista no mundo real como matéria
prima, como barro, para criar uma nova estrutura gráfica para este real, e assim, conferir a ela todos os significados
mais profundos que via no trabalho dos autores e materiais que gostava.
Em termos profissionais, de visão e adaptação ao mercado, o desenho infantil também oferece o mesmo desafio em termos de
complexidade ao profissional que deseja trilhar este caminho...
CONTINUA
Desenho Infantil: Parte II
Desenho Infantil: Parte III